Psiquiatria e Cinema: A Esquizofrenia em "Uma mente brilhante"...

May 23, 2015

O filme “uma mente brilhante” (A beautiful mind – 2001), vencedor do oscar de melhor filme, estrelado por Russell Crowe, é uma biografia do matemático John Forbes Nash, que de fato teve um diagnóstico de esquizofrenia e que, aos 21 anos, desenvolveu a chamada “Teoria dos jogos não-cooperativos”, que lhe rendeu o nobel de economia. Afora o brilhantismo de Nash, o diagnóstico de esquizofrenia e o ganho do nobel, muito pouco do que aparece no filme é real. Apesar disso, traz algumas coisas interessantes.

 

Por exemplo, a forma como a pessoa com um pensamento delirante passa a considerar pequenas coisas como uma prova de seu delírio. Na foto, John está circulando letras em periódicos como prova de algum tipo de ataque soviético na guerra fria. No filme, ele tem um delírio de que existem uma série de operações militares ocorrendo nas quais ele representa uma peça chave, e cada vez confirma mais essas idéias através da observação de coisas simples como, na foto, as letras D nos jornais.

 

Na vida real, em seus delírios Nash acreditava que havia sido escolhido por alienígenas para fundar um governo mundial, sendo que mandava cartas a líderes mundiais com recortes de jornais e revistas, sem um sentido claro para outras pessoas, que não ele. Em certa ocasião, negou o cargo de professor na Universidade de Chicago, explicando que seria Imperador da Antárdida. Em outra circunstância, fez intromissões em uma palestra, afirmando que era a foto dele que aparecia na revista Life, e não a do papa João XXIII, e “provou” dizendo que João não era o verdadeiro nome do papa, mas o dele sim, e que 23 era seu número primo favorito.

 

Quando seu amigo George Mackey, professor de Havard, questionou como ele, tão racional, podia acreditar em tamanho absurdo, Nash respondeu: “As idéias que tinha sobre seres sobrenaturais vinham a mim da mesma forma que minhas idéias matemáticas, de modo que as considerei seriamente.”

 

É mais ou menos assim quando uma pessoa tem um delírio, que por definição é uma convicção irreal que não pode ser rebatida pela argumentação lógica. Elementos pequenos se tornam provas claras do que está ocorrendo, para perplexidade de quem tem o delírio e desespero de seus familiares.

 

As alucinações que Nash apresenta no filme são muito diferentes do quadro habitual de esquizofrenia. Nessa doença, o mais habitual é que a pessoa ouça vozes, muitas vezes de conteúdo ameaçador, ordenando algo ou narrando as suas ações, e tenha alucinações visuais, geralmente na forma de vultos. Na foto abaixo, Nash e o seu amigo que o filme tratou como uma alucinação. Muito raramente, nos sintomas reais de um paciente com esquizofrenia, uma alucinação terá cabelos definidos e gravata.

 

Em relação ao tratamento, o filme traz a dificuldade de John em continuar seu tratamento, passando a esconder comprimidos.

 

Na época em que Nash iniciou seu tratamento, a psiquiatria biológica dava seus primeiros passos, sendo que o filme cita a medicação Thorazine, cujo princípio ativo, a clorpromazina, é parte do primeiro grupo de medicações usadas para tratamento da esquizofrenia, as fenotiazinas, medicações ainda usadas em alguns casos, mas que têm uma série de efeitos colaterais. No filme, Nash percebe dificuldades para pensar, para efetuar raciocínios abstratos e para relações sexuais. As alterações de pensamento são muito comuns nos quadros de esquizofrenia e muitas vezes não estão tão relacionadas à medicação.

 

Hoje em dia, dispomos de medicações muito mais eficazes e com menos efeitos colaterais para o tratamento da esquizofrenia, mas a questão da dificuldade de adesão a tratamento continua sendo primordial.

 

No caso de antibióticos, isso é uma das causas do número de bactérias resistentes a medicações que vemos atualmente, no caso de diabéticos e hipertensos, a falta de adesão ao tratamento é uma das causas principais de problemas sérios e agudos, decorrentes da complicação de problemas crônicos, como acidentes vasculares cerebrais e infartos agudos do miocárdio.

 

Em quadros psiquiátricos crônicos, como a esquizofrenia e o transtorno afetivo bipolar, interromper o medicamento é quase sempre garantia de uma nova crise, quase sempre mais grave, gerando mais sofrimento, hospitalizações prolongadas e mais seqüelas, com perda progressiva de capacidade de raciocínio, trabalho e relacionamento social.

 

Enfim, o filme é muito bom, foi aclamado pela crítica e traz pontos muito importantes para se entender um pouco da esquizofrenia e um pouquinho da vida de John Nash. Quase tudo no filme é uma leitura particular da realidade, a partir da visão artística da pessoa que escreveu o roteiro. Em todo caso, é uma bela história de superação e daquilo que buscamos todos os dias com os nossos pacientes, ajudá-los a viver com mais tranquilidade e menos medo, podendo se apropriar de suas potencialidades.

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