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Rainforest Mind: quando sua mente parece intensa, curiosa e “demais”

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Dr. Alexandre Cintra Psiquiatra em São Paulo

Por Alexandre Cintra

Texto atualizado em 23/09/2026​

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Você talvez já tenha ouvido que pensa demais. Que faz perguntas demais, que se interessa por coisas demais, que leva certos assuntos a sério demais. Que é sensível demais, intenso demais, complicado demais. E, ao mesmo tempo, talvez nunca tenha se considerado particularmente inteligente.

 

Você sabe de quantas coisas não sabe, conhece pessoas que parecem mais brilhantes, mais rápidas ou mais realizadas do que você. Pode não ter sido o melhor aluno da escola, pode detestar matemática, pode ter trocado de curso, profissão ou área de interesse várias vezes. Pode procrastinar, esquecer coisas, abandonar projetos, passar meses fascinado por um assunto para depois perder completamente o interesse.

 

E então surge uma contradição curiosa: outras pessoas enxergam capacidade em você, enquanto internamente a sensação é de estar frequentemente aquém, atrás dos outros.

 

Foi tentando descrever pessoas assim que a psicoterapeuta norte-americana Paula Prober, que trabalha há décadas com crianças e adultos com altas habilidades, criou a expressão Rainforest Mind — literalmente, "mente de floresta tropical". Não se trata de um diagnóstico psiquiátrico ou psicológico. Também não é uma classificação científica que substitua uma avaliação de Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD). É uma metáfora — e, para algumas pessoas, uma metáfora surpreendentemente útil.

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O que é uma Rainforest Mind?

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Imagine os diferentes ecossistemas do planeta. Existem desertos, campos, montanhas, florestas temperadas e florestas tropicais. Cada um tem suas próprias características, e todos têm o seu valor. Mas ao adentrar uma floresta tropical, uma coisa chama imediatamente a atenção: há simplesmente muitas coisas acontecendo ali ao mesmo tempo. Camadas sobrepostas de vegetação, sons se cruzando, relações entre milhares de espécies, uma abundância de vida no solo, nas árvores e acima delas. Sistemas dentro de sistemas, e elementos que parecem independentes, mas estão conectados.

 

Foi essa complexidade que levou Paula Prober à metáfora. A Rainforest Mind seria uma mente particularmente curiosa, intensa, sensível, criativa, associativa e complexa. O ponto não é ser "melhor" do que outras pessoas — assim como uma floresta tropical não é moralmente superior a um deserto, diferenças de funcionamento não estabelecem hierarquia de valor entre seres humanos. A questão é reconhecer que igualdade em dignidade não significa que todos funcionem da mesma maneira. E é justamente aí que começa parte da dificuldade.

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O "mais" da Rainforest Mind

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Uma palavra aparece repetidamente quando Paula Prober descreve essas pessoas: "more". Mais perguntas, mais associações, mais curiosidade, mais ideias, mais percepção, mais sensibilidade, mais interesses, mais necessidade de compreender. Isso não significa, necessariamente, que a pessoa fale mais, produza mais ou tenha uma vida profissional espetacular — o "mais" pode ser inteiramente interno.

 

Uma conversa aparentemente simples desencadeia cinco associações. Uma pergunta leva a outras dez. Um problema do trabalho rapidamente se conecta à psicologia das pessoas envolvidas, à estrutura da organização, à história daquele tipo de instituição e a uma discussão ética sobre como as coisas deveriam funcionar. Quando o interlocutor responde apenas à pergunta original, a pessoa fica com a sensação de que ficou faltando alguma coisa... ou, na verdade, muita coisa.

 

Às vezes esse funcionamento aparece como sensibilidade — perceber nuances no tom de voz, inconsistências em um argumento, mudanças sutis no comportamento de alguém, detalhes estéticos ou problemas que parecem passar despercebidos pelos demais. Em outros momentos, manifesta-se como necessidade de profundidade. Uma explicação superficial não satisfaz. Você quer saber por quê. Depois quer saber por que aquele porquê é verdadeiro. E, quando percebe, está pesquisando um tema que começou como uma dúvida casual três horas antes.

 

Para quem sempre funcionou assim, há um problema adicional: isso parece simplesmente "normal" (normal aqui significando o mais comum num grupo de pessoas, ou entre todas as pessoas). Como você não tem acesso direto à experiência interna das outras pessoas, pode passar décadas supondo que todos percebem aproximadamente o que você percebe e pensam aproximadamente com a mesma quantidade de camadas. Nem sempre é assim.

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Uma nota histórica: Dabrowski e as sobreexcitabilidades

 

Vale abrir um breve parêntese sobre a origem intelectual dessa forma de olhar para pessoas com altas habilidades — em parte porque isso ajuda a entender o solo em que a metáfora de Prober cresceu, e em parte porque a literatura sobre AH/SD em adultos costuma retornar a esses conceitos.

 

Nos anos 1960 e 1970, o psiquiatra polonês Kazimierz Dabrowski propôs uma teoria do desenvolvimento humano em que a intensidade emocional não era um problema a ser corrigido, mas uma matéria-prima possível para o crescimento psicológico. Dabrowski descreveu cinco áreas que chamou de sobreexcitabilidades (overexcitabilities), padrões de reatividade acima da média:

 

  • Psicomotora — abundância de energia física, gestualidade, inquietação;

  • Sensorial — resposta intensa a estímulos táteis, sonoros, visuais, gustativos;

  • Intelectual — necessidade voraz de análise, questionamento, síntese teórica;

  • Imaginativa — vivacidade de imagens mentais, fantasia, pensamento associativo, sonhos elaborados;

  • Emocional — profundidade e amplitude de sentimentos, empatia, apego intenso.

 

A teoria original de Dabrowski é ampla e, em vários aspectos, difícil de operacionalizar cientificamente — não é, hoje, um modelo diagnóstico validado. Mas o conceito de sobreexcitabilidades sobreviveu porque descreve, com bastante precisão, algo que educadores, psicoterapeutas e clínicos observam repetidamente em algumas pessoas com altas habilidades: a intensidade não é um sintoma, e sim uma característica de funcionamento. Boa parte do que Paula Prober descreve como Rainforest Mind pode ser lido como uma tradução mais acessível e contemporânea desse mesmo território.

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"Mas eu não sou superdotado”

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Essa é uma das frases mais frequentes quando adultos começam a explorar o tema das altas habilidades.

 

Parte da dificuldade está na própria palavra superdotação — ela carrega uma imagem cultural pesada: gênios matemáticos, crianças prodígio, notas perfeitas, cientistas excepcionais, pessoas que aparentemente dominam tudo o que fazem. Diante desse padrão imaginário, é fácil concluir que "não pode ser o meu caso".

 

Mas desempenho acadêmico, sucesso profissional e capacidade cognitiva não são a mesma coisa. Uma pessoa pode ter passado pela escola sem grande destaque, ter se entediado, enfrentado dificuldades emocionais, desenvolvido estratégias de camuflagem, apresentado TDAH ou autismo concomitantes, encontrado ambientes pouco estimulantes ou simplesmente investido sua curiosidade em assuntos que não eram valorizados pelo sistema educacional.

 

Além disso, pessoas muito capazes frequentemente "se comparam para cima". Em vez de perceberem a distância entre seu funcionamento e a média estatística, lembram imediatamente das pessoas que sabem mais do que elas. Quanto mais conhecimento se adquire, mais visível também se torna a dimensão daquilo que ainda não se sabe. Reconhecer uma capacidade acima da média pode ser psicologicamente desconfortável — principalmente para alguém preocupado com justiça, com igualdade ou com a possibilidade de parecer arrogante. Mas reconhecer uma diferença de funcionamento não implica atribuir maior valor humano a si mesmo. Somos iguais em dignidade; não precisamos ser idênticos em funcionamento.

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Por que a identificação em adultos costuma vir tarde (ou nunca)?

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Um ponto pouco discutido, e clinicamente importante, é que a AH/SD em adultos é sistematicamente subidentificada. Há várias razões que se combinam.

 

A avaliação escolar tradicional privilegia desempenho acadêmico em contextos estruturados. A criança que se entedia e desiste, que fica desatenta em conteúdo repetitivo, que apresenta assincronia entre maturidade intelectual e emocional, ou que vem de um contexto socioeconômico com poucos estímulos, tende a passar despercebida. Meninas, historicamente, são ainda menos identificadas — em parte porque aprendem cedo a modular ou esconder a intensidade para não pagar o preço social de "não caber".

 

A comorbidade com outras condições costuma tomar a frente do quadro. Muitos adultos chegam ao consultório com um diagnóstico prévio de ansiedade, depressão, burnout, TDAH ou traços obsessivos, e nunca ninguém investigou o que acontece embaixo. Não é raro que a alta capacidade cognitiva tenha, por décadas, mascarado dificuldades executivas, sensibilidades sensoriais ou padrões atencionais que só apareceram quando a demanda da vida adulta ultrapassou a capacidade de compensação.

 

E há, por fim, a história de camuflagem. A criança que percebeu cedo que "pensar em voz alta" gerava desconforto no ambiente aprende a esconder — reduz vocabulário, evita perguntar, faz-se de menos. Chega à idade adulta sem saber exatamente do que abriu mão, mas com uma sensação persistente de não estar sendo inteira.

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Quando a floresta encontra "motosserras"

 

A metáfora de Prober tem uma segunda parte particularmente interessante: florestas podem ser exuberantes, e também podem ser derrubadas.

 

Ao longo da vida, uma pessoa muito intensa ou intelectualmente curiosa recebe inúmeras mensagens tentando fazê-la funcionar de maneira diferente — "pare de pensar tanto", "você complica tudo", "não precisa ir tão fundo", "você é sensível demais", "escolha uma coisa e fique nela", "por que você precisa questionar tudo?". Algumas dessas intervenções são legítimas: capacidade intelectual não torna ninguém sempre correto, e aprender a ouvir, modular a comunicação e considerar as necessidades das outras pessoas faz parte do amadurecimento.

 

O problema começa quando a adaptação deixa de ser flexibilidade e se transforma em apagamento. A pessoa aprende a diminuir o vocabulário, evita demonstrar entusiasmo, faz perguntas cuja resposta já sabe para não parecer diferente, oculta interesses, deixa de compartilhar associações porque percebe que precisaria explicar cinco etapas intermediárias. Pode até evitar realizações que aumentariam as expectativas sobre ela. Passar anos tentando podar uma floresta até fazê-la parecer um gramado tem custo — e esse custo costuma aparecer, mais cedo ou mais tarde, na forma de exaustão, desconexão de si, vazio ou sintomas ansioso-depressivos que não respondem bem aos tratamentos convencionais porque o problema está em outro lugar.

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Multipotencialidade, TDAH e o que distingue os dois...

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Um elemento central da Rainforest Mind é o que se costuma chamar de multipotencialidade. Algumas pessoas têm um grande campo de interesse e passam décadas aprofundando-se nele. Outras parecem intelectualmente onívoras: psicologia leva a neurociência, neurociência leva a inteligência artificial, IA leva a filosofia da mente, filosofia leva à história das religiões, e no meio surgem astronomia, fotografia, economia, música ou alguma habilidade completamente nova que precisa ser aprendida imediatamente.

 

Isso às vezes produz trajetórias profissionais pouco lineares. A pessoa entra em uma área, aprende rapidamente, torna-se competente, domina aquilo que desejava compreender e então percebe que a atividade perdeu grande parte do fascínio. De fora, isso pode parecer instabilidade — "ela nunca termina nada", "não sabe o que quer", "não consegue se comprometer". Mas há outra leitura possível: para aquela pessoa, o objetivo psicológico não era necessariamente permanecer; era aprender.

 

Isso não significa romantizar toda desistência. Abandonar repetidamente compromissos por medo, intolerância à frustração ou dificuldade executiva pode causar problemas importantes. A pergunta clínica útil é: o que está mantendo esse padrão? Há uma grande diferença entre fugir continuamente de dificuldades e perceber que determinado ciclo de aprendizagem se completou.

 

E aqui aparece uma sobreposição particularmente importante: multipotencialidade não é TDAH, mas as duas coisas podem se parecer superficialmente — e podem coexistir. Uma pessoa criativa e multipotencial pode trabalhar de forma não linear (vários livros abertos, projetos simultâneos, alternância rápida entre temas) sem ter TDAH. Ao mesmo tempo, altas habilidades e TDAH podem estar juntas — o que chamamos de dupla excepcionalidade —, e nesse caso a alta capacidade cognitiva pode mascarar por anos dificuldades importantes de função executiva, até que as exigências da vida ultrapassem a capacidade de compensação.

 

A distinção diagnóstica não se resolve por lista de sintomas. Exige olhar a história desde a infância, a persistência dos sintomas em diferentes contextos, o padrão de prejuízo funcional. Ter dez interesses não configura TDAH. Precisar de novidade não configura TDAH. Pensar de forma associativa não configura TDAH.

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Mas seria erro simétrico atribuir automaticamente às altas habilidades dificuldades persistentes de atenção e função executiva que estão pedindo tratamento próprio. (Para ver a página sobre TDAH, clique aqui)

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A solidão de não se sentir encontrado

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Um dos aspectos mais marcantes descritos por Prober é a solidão — não necessariamente a solidão de quem não tem pessoas ao redor. É possível ter amigos, família, colegas e um relacionamento amoroso e ainda experimentar a sensação de que certas partes de si raramente são encontradas.

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As conversas parecem curtas demais quando você gostaria de aprofundá-las. Uma ideia que para você contém quinze ramificações recebe como resposta apenas "legal". Seu humor depende de associações que nem sempre são acompanhadas. Você é frequentemente a pessoa procurada para pensar problemas, organizar crises ou oferecer conselhos, mas tem dificuldade para encontrar alguém que consiga te acompanhar em sua própria complexidade.

 

A questão não é exigir que uma única pessoa compreenda tudo — isso talvez não seja possível. Adultos complexos costumam se beneficiar de uma rede de relações diferentes: algumas pessoas compartilham interesses intelectuais, outras oferecem intimidade emocional, outras participam de atividades criativas, profissionais, esportivas ou culturais. A expectativa de encontrar alguém capaz de ocupar todos esses lugares pode, paradoxalmente, aprofundar a solidão. A pergunta clínica mais útil deixa de ser "quem vai me compreender por inteiro?" e passa a ser "em quais contextos diferentes consigo ser um pouco mais inteiro?".

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"Sou demais" e, ao mesmo tempo, "não sou suficiente"

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Há uma contradição muito comum nesse universo: de um lado, "eu sou intenso demais"; do outro, "eu deveria estar fazendo muito mais". A mesma pessoa que aprende a diminuir-se socialmente pode, internamente, manter expectativas extraordinariamente altas. Se é inteligente, "deveria aproveitar melhor a inteligência". Se aprende rápido, "deveria dominar tudo rapidamente". Se tem muitas possibilidades, "deveria escolher a melhor". Se possui talento, "deveria transformá-lo em realização".

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Uma característica que poderia ampliar possibilidades passa a funcionar como cobrança. O perfeccionismo ganha uma forma particularmente cruel quando a pessoa está acostumada a aprender muitas coisas com relativa facilidade — em algum momento, ela inevitavelmente encontra algo difícil, e vem a interpretação: "se estou tendo dificuldade, talvez eu não seja tão capaz quanto imaginava". Em vez de tratar dificuldade como parte normal da aprendizagem, ela passa a funcionar como ameaça à identidade. Daí podem surgir procrastinação, preparação interminável ou preferência por atividades nas quais há menor risco de parecer incompetente.

 

Não é falta de capacidade — é, com frequência, o significado atribuído à capacidade que torna tão difícil experimentar não saber.

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Trabalho: quando pensar rápido não torna as coisas mais fáceis

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Alta capacidade não garante satisfação profissional. Algumas pessoas descrevem um sofrimento importante quando percebem soluções rapidamente, mas trabalham em ambientes nos quais decisões precisam percorrer processos longos. Outras terminam tarefas antes do tempo e ficam subestimuladas. Algumas percebem incoerências organizacionais que não têm poder para modificar.

 

Pode existir também uma dificuldade menos óbvia: separar "perceber algo antes" de "conseguir levar outras pessoas até essa percepção". Estas são simplesmente habilidades significativamente diferentes. Estar cinco etapas à frente não elimina a necessidade de construir as quatro etapas intermediárias para que uma equipe consiga acompanhar o raciocínio. Essa distinção pode ser transformadora — a questão deixa de ser "por que ninguém acompanha?" e passa a incluir "como comunicar o que percebi de uma maneira que torne o caminho visível?".

 

Em outras situações, há genuína incompatibilidade entre pessoa e contexto. Um ambiente excessivamente repetitivo ou rigidamente hierárquico pode ser difícil para alguém com grande necessidade de autonomia, aprendizagem e variedade. Nem sempre a solução é mudar de emprego; nem sempre é permanecer. O trabalho terapêutico consiste, em boa parte, em escapar de respostas automáticas e entender qual função aquele contexto exerce naquela vida específica.

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Uma Rainforest Mind precisa de psicoterapia?

 

Não necessariamente. Identificar-se com a metáfora não significa possuir um transtorno, e não cria por si só necessidade de tratamento. Para algumas pessoas, encontrar uma linguagem que organize experiências antigas produz alívio — e este é o motivo principal pelo que me levou a este texto — a percepção de que talvez exista uma explicação para o próprio funcionamento é, muitas vezes, o suficiente.

 

Para outras, o reconhecimento abre novas perguntas: há ansiedade importante? Depressão? Insônia?

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Trauma? TDAH? Autismo? Perfeccionismo incapacitante? Dificuldades relacionais persistentes? Burnout? Um padrão persistente de abandonar projetos está ligado à multipotencialidade ou à dificuldade de tolerar frustração? É aí que uma avaliação clínica cuidadosa pode ser útil — não para transformar a pessoa em um caso, mas para separar o que é característica de funcionamento do que é sofrimento tratável.

 

Uma boa psicoterapia com esse perfil não tenta fazer a pessoa complexa ficar menos complexa. O objetivo é ajudá-la a usar seu repertório com maior flexibilidade — aprender quando aprofundar e quando parar, quando insistir e quando mudar de direção, quando uma percepção merece ser defendida e quando é apenas uma hipótese, quando adaptar-se ao ambiente e quando procurar outro. Para uma mente acostumada a resolver tudo por pensamento, boa parte do trabalho está em ampliar a experiência para além dele: corpo, relações, atividade física, natureza, criatividade, descanso, experiências nas quais estar presente é mais importante do que compreender tudo.

 

Do lado das abordagens, algumas se mostram particularmente adequadas a esse perfil. A Terapia Cognitivo-Comportamental, quando praticada de forma flexível e não protocolar, oferece linguagem clara para trabalhar perfeccionismo, esquemas de autoexigência e padrões cognitivos que sustentam o sofrimento. A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) contribui com o trabalho sobre valores, contato com o presente e desfusão cognitiva — recursos úteis para uma mente que tende a se prender no próprio pensamento. E a perspectiva mais ampla da Psicoterapia Baseada em Processos ajuda a evitar a armadilha de aplicar protocolos genéricos a alguém cujo funcionamento é, por definição, atípico.

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O problema talvez não seja caber melhor na caixa

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Uma frase recorrente no trabalho de Paula Prober resume parte dessa mudança de perspectiva: talvez seja necessário parar de tentar entrar na caixa. Isso não significa viver sem limites, compromissos ou responsabilidade. Significa perguntar se uma vida construída para parecer correta externamente também é sustentável internamente.

 

Talvez uma carreira única para sempre faça sentido para você — ou talvez não. Talvez seu desenvolvimento aconteça por aprofundamento contínuo de uma especialidade, ou pela integração de várias áreas. Talvez você precise de grandes períodos de atividade intelectual, ou precise conscientemente equilibrá-los com experiências corporais, afetivas ou contemplativas. Autoconhecimento não deveria criar uma nova obrigação — "agora preciso viver como uma Rainforest Mind" —, e sim ampliar liberdade.

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Rainforest Mind é a mesma coisa que Altas Habilidades/Superdotação?

 

Não exatamente. Rainforest Mind é uma metáfora criada por Paula Prober a partir da sua experiência educacional e clínica com pessoas com altas habilidades. Não é um diagnóstico ou classificação reconhecida por classificações médicas ou psicológicas, e não existe um "teste diagnóstico de Rainforest Mind". A própria

 

Prober usa o conceito para descrever uma determinada apresentação da superdotação, marcada não apenas pela capacidade intelectual, mas também por características como curiosidade intensa, criatividade, sensibilidade, multipotencialidade, idealismo e busca por significado.

 

Nem toda pessoa inteligente se reconhecerá nessa descrição — e reconhecer-se nela não estabelece, isoladamente, um diagnóstico formal. Se seu objetivo é compreender especificamente AH/SD, critérios de identificação, avaliação e diagnósticos diferenciais, veja a página dedicada a Altas Habilidades e Superdotação em Adultos.

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E se eu tiver me reconhecido em quase tudo?

 

Não é necessário transformar imediatamente essa identificação em rótulo. Talvez seja mais interessante usá-la como hipótese para investigar sua própria história. Como você aprendia quando criança? Que tipo de assuntos despertava sua curiosidade? Você costumava aprofundar temas além do que lhe era pedido? Como reage quando finalmente domina alguma coisa — permanece ou parte para outra? O que acontece quando precisa ficar muito tempo em ambientes pouco estimulantes? Você costuma esconder aspectos de si para facilitar a adaptação social? Existe diferença entre aquilo que consegue fazer e aquilo que efetivamente consegue organizar, iniciar ou concluir? Quais partes de sua intensidade lhe trazem vitalidade — e quais hoje produzem sofrimento?

 

Essas perguntas costumam ser mais úteis do que simplesmente contar quantas características de uma lista você possui. Porque, no fim, o objetivo de compreender o próprio funcionamento não é provar pertencimento a uma categoria especial. É construir uma vida que faça mais sentido para a pessoa que você efetivamente é.

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Avaliação de Altas Habilidades em adultos em São Paulo

 

Em meu trabalho como psiquiatra e psicoterapeuta, atendo adultos que chegam com diferentes questões relacionadas a altas habilidades: pessoas identificadas na infância, adultos que começaram a considerar essa possibilidade apenas décadas depois, pacientes com suspeita de TDAH ou autismo, casos de dupla excepcionalidade. A avaliação não parte da ideia de que toda intensidade seja superdotação, nem de que toda dificuldade de atenção seja TDAH.

 

Procuro compreender a trajetória de desenvolvimento, o funcionamento cognitivo, a história escolar e profissional, os padrões relacionais, o sofrimento atual, as estratégias de compensação construídas ao longo dos anos e o contexto em que determinadas características aparecem. Quando necessário, a avaliação é articulada com avaliação neuropsicológica, feita por profissional desta área, para identificação formal de altas habilidades. O objetivo não é encontrar um rótulo sofisticado que explique tudo — é construir uma formulação suficientemente precisa para que a pessoa entenda o próprio funcionamento e possa tomar decisões mais coerentes com ele.

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Referências e leituras

 

DABROWSKI, K. Positive Disintegration. Boston: Little, Brown, 1964.

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PROBER, P. Your Rainforest Mind: A Guide to the Well-Being of Gifted Adults and Youth. Olympia: GHF Press, 2016.

 

PROBER, P. Journey Into Your Rainforest Mind: A Field Guide for Gifted Adults and Teens, Book Lovers, Overthinkers, Geeks, Sensitives, Brainiacs, Intuitives, Procrastinators, and Perfectionists. Olympia: GHF Press, 2019.

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SILVERMAN, L. K. Giftedness 101. New York: Springer, 2013.

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WINNER, E. The origins and ends of giftedness. American Psychologist, v. 55, n. 1, p. 159-169, 2000. DOI: 10.1037/0003-066x.55.1.159

Dr. Alexandre Cintra Psiquiatra em São Paulo

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