top of page

Depressão em adultos: além da tristeza — Sintomas, história e tratamento contextual em São Paulo

depressao.webp

Por Alexandre Cintra

Texto atualizado em 07/05/2026

A depressão é frequentemente descrita como um "transtorno afetivo", mas quem a vive sabe que ela é muito mais do que tristeza ou oscilação de humor. É uma alteração profunda na forma como a pessoa se relaciona com o mundo, com o futuro e consigo mesma — uma configuração biológica e psicológica que paralisa a funcionalidade, distorce a percepção da realidade e afasta da pessoa o acesso aos seus próprios valores.

 

Trata-se de um dos transtornos psiquiátricos mais frequentes — afeta cerca de 15 a 20% da população ao longo da vida —, e também um dos mais subdiagnosticados, justamente porque seus sintomas mais cruéis podem se confundir com traços de personalidade ou momentos passageiros.​

Diferença entre Tristeza e Depressão

 

A tristeza é uma emoção humana legítima, com função adaptativa: ela nos sinaliza perdas, frustrações, decepções, e nos prepara para reorganizar prioridades. Sentir-se triste após o fim de um relacionamento, a perda de um animal de estimação, a perda de algo que lhe era caro ou uma demissão não é depressão.

 

É luto, é processamento, é vida acontecendo.

A depressão começa onde essa resposta natural deixa de funcionar como sinal e passa a se tornar estado. Em vez de informação, vira prisão. Algumas características práticas que diferenciam:

  • Duração persistente: sintomas presentes na maior parte do dia, quase todos os dias, por mais de duas semanas;

  • Desproporção: intensidade que não corresponde aos eventos da vida — ou que persiste muito além do tempo razoável de processamento;

  • Pervasividade: afeta múltiplas áreas (trabalho, relacionamentos, autocuidado, sono, alimentação) ao mesmo tempo;

  • Anedonia: perda do prazer em coisas que antes geravam prazer (não só falta de motivação para começar — falta de gratificação mesmo quando se está fazendo);

  • Sensação de irrealidade: a vida pode parecer "embaçada", como se vivida atrás de um vidro;

  • Distorção cognitiva: pensamentos negativos sobre si, sobre o mundo e sobre o futuro que se tornam, naquele momento, convincentes — é parte do quadro o doente acreditar que sua leitura pessimista é a única realista.

Os tipos de depressão

Sob o termo "depressão" reúnem-se quadros clinicamente distintos, que demandam diferentes abordagens terapêuticas. Os mais frequentes:

Episódio depressivo maior: O que a maioria das pessoas chama simplesmente de "depressão". Caracterizado por sintomas mais intensos durante semanas a meses, com forte impacto funcional. Pode ser único na vida ou recorrente.

Transtorno depressivo persistente (distimia): Forma menos intensa, mas mais arrastada — sintomas leves a moderados que persistem por dois anos ou mais. Frequentemente confundida com "jeito de ser" da pessoa. Quem tem distimia muitas vezes não percebe que está em sofrimento porque nunca conheceu outra forma de existir.

Depressão atípica: Apresentação que escapa ao estereótipo: em vez de insônia, sono excessivo; em vez de perda de apetite, aumento; sensação de "peso" nos membros; alta sensibilidade à rejeição. Responde bem ao tratamento, mas costuma ser confundida com preguiça ou desânimo.

Depressão psicótica: Quadro grave em que o sofrimento depressivo se acompanha de sintomas psicóticos — delírios de culpa, ruína ou doença. Exige tratamento específico, frequentemente combinado com antipsicóticos.

Depressão sazonal: Episódios que se repetem em épocas específicas do ano, geralmente no inverno em latitudes mais altas. No Brasil é menos comum em sua forma clássica, mas existem variantes.

 

Depressão pós-parto: Episódio que se inicia na gravidez ou nas primeiras semanas após o parto. Tem características próprias — não confundir com o "baby blues" passageiro dos primeiros dias.

 

Depressão como fase do transtorno bipolar: Tecnicamente não é "depressão" em sentido isolado: é uma fase de um transtorno do humor bipolar. Diferenciá-la é crucial, pois o tratamento com antidepressivos sem estabilizador pode piorar o quadro.

A Melancolia através dos séculos: de Hipócrates a Plutarco

A dificuldade em compreender a depressão não é nova. Hipócrates, no século V a.C., já falava em "melancolia" como um desequilíbrio da "bile negra" — uma das primeiras formulações biológicas do sofrimento mental. Aristóteles, com sua tese cardiocêntrica, situava as emoções no coração, e refletia sobre por que tantos homens excepcionais pareciam predispostos à melancolia.

Mas é em Plutarco (século II d.C.) que vemos uma das descrições mais precisas e cruéis do estado depressivo: a sensação de ser "odiado pelos deuses". O afastamento de tudo — o sentar-se ao relento, expor-se ao tempo ruim, e afastar de si "o médico e o amigo consolador" —, descreve com precisão fenomenológica o que hoje chamamos de anedonia social, isolamento, e sentimento de indignidade.

 

Esse é talvez o aspecto mais difícil de explicar para quem nunca viveu uma depressão grave: o paciente afasta a ajuda de que mais precisa, não por orgulho, mas porque a doença convence sua mente de que ele não merece ajuda. Reconhecer isso como sintoma, e não como diagnóstico realista da situação da pessoa, é um dos passos terapêuticos mais importantes.

Sinais de alerta: como reconhecer a depressão

O diagnóstico é clínico, baseado em um conjunto de sintomas que, juntos, configuram o quadro depressivo. Os principais marcadores são:

  • Humor depressivo persistente: tristeza profunda, sensação de vazio ou apatia presentes na maior parte do dia, quase todos os dias;

  • Anedonia: perda do prazer ou interesse em atividades que antes traziam satisfação — incluindo as mais simples, como conversar, comer algo gostoso ou assistir a algo que antes gostava;

  • Alterações do sono: insônia (em geral, despertar precoce) ou sono excessivo, com sensação de não descansar;

  • Alterações do apetite: redução ou aumento significativo, com perda ou ganho de peso não intencionais;

  • Lentificação ou agitação psicomotora: mudança visível no ritmo da pessoa — alguns ficam mais lentos, outros mais inquietos;

  • Fadiga e perda de energia: cansaço desproporcional, dificuldade de iniciar tarefas simples;

  • Sentimentos de culpa ou inutilidade: percepção de ser um peso para os outros, autocríticas implacáveis sem fundamento real;

  • Dificuldade de concentração e tomada de decisão: o pensamento fica "embaralhado", e decisões corriqueiras parecem montanhas;

  • Pensamentos sobre morte: desde o desejo passivo de "não acordar mais" até ideação suicida ativa.

 

A presença de cinco ou mais desses sintomas, persistindo por mais de duas semanas e causando prejuízo funcional, configura quadro depressivo e exige avaliação especializada.

Comorbidades comuns: depressão raramente vem sozinha

A depressão isolada é exceção, não regra. Mais de 60% dos pacientes com transtorno depressivo apresentam alguma comorbidade, o que muda significativamente a estratégia de tratamento. As mais frequentes:

Transtornos de ansiedade — combinação tão comum que a literatura fala em "depressão ansiosa". Um quadro alimenta o outro, e ignorar um deles costuma fazer o tratamento parecer ineficaz.

 

TDAH em adultos — quadro frequentemente subdiagnosticado em pacientes deprimidos, especialmente mulheres. A cronicidade da desregulação atencional pode gerar fracasso reiterado, frustração e, sobre isso, depressão secundária. Tratar só a depressão sem reconhecer o TDAH costuma resultar em remissão parcial e recaídas.

 

Transtornos relacionados a substâncias — álcool é o mais frequente. A automedicação para aliviar sintomas depressivos é tentação comum e armadilha terapêutica clássica.

 

Transtornos de personalidade — especialmente perfis com traços evitativos, dependentes ou borderline, em que a vulnerabilidade à depressão é estrutural.

 

Doenças clínicas — hipotireoidismo, deficiência de vitamina B12, anemia, doenças autoimunes e neurológicas podem mimetizar ou desencadear depressão. Avaliação inicial cuidadosa inclui exames laboratoriais.

Tratamento integrado: farmacologia, psicoterapia e ativação

O tratamento da depressão moderado a grave costuma se beneficiar da combinação entre abordagem farmacológica e psicoterapêutica. Não são alternativas — são complementares.

Tratamento farmacológico

 

Os antidepressivos atuam modulando neurotransmissores (serotonina, noradrenalina, dopamina) que estão desregulados no quadro depressivo. As principais classes incluem:

  • ISRS (sertralina, escitalopram, fluoxetina, paroxetina) — primeira linha pelo perfil de tolerabilidade;

  • IRSN (venlafaxina, duloxetina, desvenlafaxina) — particularmente úteis quando há fadiga marcante ou dor crônica associada;

  • Atípicos (bupropiona, mirtazapina, vortioxetina, agomelatina, trazodona) — escolhidos com base no perfil de sintomas e efeitos colaterais;

  • Tricíclicos e IMAOs — menos usados hoje em primeira linha, mas eficazes em casos específicos.

 

A escolha não é genérica: depende do perfil específico do paciente, das comorbidades, das medicações que já tomou, do contexto de vida (incluindo planos de gestação) e das preferências informadas. Os primeiros efeitos perceptíveis costumam aparecer entre 10 e 20 dias, com resposta plena tipicamente entre 4 e 8 semanas. Esse atraso é uma das principais causas de abandono precoce do tratamento.

 

Psicoterapia

 

A psicoterapia atua em frente complementar — onde a medicação modifica a biologia, a psicoterapia trabalha os processos cognitivos, emocionais e comportamentais que sustentam o quadro. As abordagens com maior evidência:

  • Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): trabalha a reestruturação dos padrões de pensamento depressivos — a famosa "tríade negativa" descrita por Aaron Beck (visões enviesadas sobre si mesmo, sobre o mundo e sobre o futuro);

  • Ativação comportamental: técnica frequentemente decisiva no início do tratamento. Quando a depressão está intensa, esperar a "vontade de fazer" voltar é armadilha — a vontade volta depois da ação retomada, não antes;

  • Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT): trabalha a relação do paciente com seus próprios pensamentos e emoções, restaurando a capacidade de agir alinhado a valores mesmo na presença do sofrimento.

Neuromodulação para casos resistentes

 

Quando o tratamento convencional não responde adequadamente, modalidades como Estimulação Magnética Transcraniana (EMT) e, em casos selecionados, eletroconvulsoterapia (ECT) podem ser indicadas. São tratamentos seguros, com evidência sólida, e frequentemente subutilizados por estigma.

 

Quando a depressão é "resistente" ao tratamento?

 

Cerca de 30% dos pacientes não respondem adequadamente ao primeiro tratamento bem conduzido. Isso não significa "caso perdido" — significa que o tratamento precisa ser ajustado, não abandonado.

Estratégias quando há resposta insuficiente:

  • Otimização da dose — frequentemente o tratamento é interrompido em doses subterapêuticas;

  • Troca de antidepressivo — paciente que não responde a um ISRS pode responder a um IRSN, atípico, ou vice-versa;

  • Combinação de medicações — associar antidepressivos com mecanismos diferentes, ou potencializar com lítio, antipsicóticos atípicos ou hormônio tireoidiano;

  • Intensificação da psicoterapia — frequência maior de sessões, mudança de abordagem;

  • Neuromodulação — EMT, ECT;

  • Reavaliação diagnóstica — não é raro descobrir que o que parecia depressão era, na verdade, transtorno bipolar mal diagnosticado, TDAH não reconhecido, ou comorbidade clínica não tratada.

 

A persistência é parte do tratamento. Pacientes que continuam buscando ajuda após primeiras tentativas frustradas têm desfecho final geralmente bom.

Sobre o Dr. Alexandre Cintra — Psiquiatra em São Paulo

 

Dr. Alexandre Donizeti dos Reis Cintra é médico psiquiatra (CRM: 139.224-SP | RQE: 39418) com consultório na Alameda Santos, 211 — Cerqueira César, São Paulo.

 

Atende adultos com transtornos depressivos, ansiosos, TDAH, TOC, transtorno bipolar, Altas Habilidades/Superdotação e condições associadas, com abordagem que integra farmacologia de precisão e psicoterapia baseada em processos — combinando ferramentas de TCC, ACT e abordagens contextuais.

 

O tratamento da depressão em adultos ocorre de forma individualizada, considerando o tipo específico do quadro (episódio único, recorrente, distimia, fase bipolar), as comorbidades, o impacto funcional, a história de tratamentos prévios e os objetivos de vida do paciente. Agendamentos pelo telefone (11) 3628-3915 ou WhatsApp (11) 99920-8895.

Referências Bibliográficas

​​BARR, Peter B.; BIGDELI, Tim B.; MEYERS, Jacquelyn L. Prevalence, comorbidity, and sociodemographic correlates of psychiatric diagnoses reported in the all of us research program. JAMA psychiatry, v. 79, n. 6, p. 622-630, 2022.

COLES, Sarah; WISE, Dakota. Management of Major Depressive Disorder in Adults: Guidelines From CANMAT. American Family Physician, v. 112, n. 4, p. 458-461, 2025.

MCINTYRE, Roger S. et al. Treatment‐resistant depression: definition, prevalence, detection, management, and investigational interventions. World psychiatry, v. 22, n. 3, p. 394-412, 2023.

QASEEM, Amir et al. Nonpharmacologic and pharmacologic treatments of adults in the acute phase of major depressive disorder: a living clinical guideline from the American College of Physicians. Annals of internal medicine, v. 176, n. 2, p. 239-252, 2023.

TEBEKA, Sarah et al. Sadness and the continuum from well-being to depressive disorder: Findings from a representative US population sample. Journal of psychiatric research, v. 132, p. 50-54, 2021.

Perguntas frequentes

Dr. Alexandre Donizeti dos Reis Cintra - CRM: 139.224-SP

Psiquiatra [RQE: 39418]

Alameda Santos, 211 - Cj. 1709 - Cerqueira Cesar - São Paulo - SP

Tel: (11) 3628-3915 WhatsApp: (11) 99920-8895

instagram.png
facebook.png
Copy of Copy of Tire suas dúvidas ou age
youtube.png
bottom of page